Cadê a última cena?

Posted in Uncategorized on abril 2, 2008 by Fabiano Ristow

As notícias do jornal freqüentemente me desestimulam, porque carecem de desfecho.

O que houve com Madeleine? Foi morta pelos pais? Está seqüestrada numa região secreta da península escandinava?

A assessora de Dilma estava realmente montando um dossiê ou um banco de dados?

Quem jogou Isabella da janela?

Ah, gente, eu fico curioso. E você abre o jornal todos os dias na esperança de uma conclusão, mas é só mais acusação, mais personagens na história, mais contradições, mais tréplicas, boatos…

Constatação

Posted in Música on fevereiro 12, 2008 by Fabiano Ristow

Foram necessários alguns anos para eu chegar à conclusão de que Emiliana Torrini chuta as bundas da Enya e da Annie Lennox.

Sério, nerds, como nunca reconhecemos que “Gollum’s Song” é, de longe, a melhor?!

Dooon’t stop… belieeeving

Posted in Televisão on fevereiro 9, 2008 by Fabiano Ristow

FINALMENTE, terminei “Família Soprano”. Final foda. Vai de encontro a tudo que eu poderia esperar/imaginar. Confesso que, por causa disso, a digestão demorou algumas horas. Mas, considerando se tratar de uma série que, desde o começo, teve culhões para agarrochar noções tradicionais de moralismo, não há outra palavra para classificar o desfecho a não ser brilhante.

Tony Soprano apareceu pela primeira vez na sala de espera de um consultório psiquiátrico, em 1999, numa cena que revelava seu caráter ambíguo: um pai sentimental e, ao mesmo tempo, chefe da máfia de New Jersey, responsável por inúmeros assassinatos e casos de corrupção. A HBO ainda hesitou em mostrar Tony matando alguém com suas próprias mãos – o que veio a acontecer somente no sexto episódio. Ela receava uma possível aversão do público a um personagem “cruel”. Não foi o que aconteceu.

Pessoalmente, nunca considerei correta a possibilidade de Tony sair ileso no fim da história – o que contraria o desejo de boa parte dos telespectadores. De que lado o criador David Chase ficaria eu não tinha a menor idéia. Depois de oito anos, ele conseguiu engendrar um final absolutamente espetacular, inteligente e ambíguo – e heterodoxo. Se você ainda não viu a série e é louco o suficiente para assistir à última cena mesmo assim, vá em frente (não recomendo). Comparada até com Haneke, ela provocou polêmica na mídia e público, pois… (selecione o texto a seguir):

[…não responde se Tony morre ou não. Na primeira temporada, Bobby Bacala menciona que você provavelmente nem ouve o som da bala quando toma um tiro na cabeça, e o fato de essa cena final ser abruptamente interrompida – num corte seco para a tela preta – sugere algo do tipo. Pessoas aparentemente suspeitas entram na lanchonete, olham de soslaio, um homem vai até o banheiro parecendo tramar alguma coisa. A cena inteira bafeja tragédia. Mas, até aí, isso poderia não passar de paranóia de Tony e a família continuou jantando normalmente.]

O desfecho contraria qualquer expectativa hollywoodiana de catarse dramática. Na verdade, todos os últimos nove episódios são construídos sobre uma impassibilidade pouco familiar, mas, paradoxalmente, nem por isso deixam de lado as fórmulas que consagraram o programa: o humor (negro) constante, os complexos nuances dos caráteres dos personagens, a violência explícita e a prodigiosa capacidade de extrair grandes temas de pequenas coisas.

De qualquer forma, não há as Grandes Cenas Finais, os Grandes Desfechos, as Últimas Aparições e as Grandes Despedidas. Estão ali personagens que você acompanhou durante quase uma década, e de repente a câmera desvia o olhar e nunca mais os mostra; a narrativa passa a se preocupar com outra subtrama. Isso é uma evidência da independência de uma série que sempre andou com as próprias pernas, sem jamais se prender, na medida do possível, às demandas do ibope. Personagens sempre morreram em prol da narrativa, por exemplo, independentemente de serem ou não queridos pelo público.

Só me dei conta do quão foda é o final de “Família Soprano” algumas horas depois de vê-lo, e foi também nesse instante que bateu aquele vazio clássico de quando você termina um livro bom e tem de encarar o fato de que nunca mais lerá sobre aqueles personagens com os quais você tanto se identificou. Sério, até agora estou deprimido. Vou ver MTV.

Tem que ser com jeitinho

Posted in Geral on fevereiro 7, 2008 by Fabiano Ristow

Situação 1:

Meu coração andou despirocando novamente nas últimas semanas, então ontem fui ao Cardiologista – um novo. Chegando lá, ele ouve meus batimentos com o estetoscópio, tira a pressão, faz o eletro, essas coisas de praxe, e então coloca a mão na minha barriga, esboça uma careta e diz:

– Você sabia que sua barriga pulsa?
– Ahn… não?
– Pois é. Deve ser porque você é magro.
– Sei.
– …ou porque você tem uma aorta anormal.

Assim, casualmente. Simpático, não?

Situação 2:

Há pouco mais de dois anos, minutos depois da ablação (cateterismo), ainda na cama da UTI e tentando enxergar através do rastro de neblina deixado pela anestesia ainda em efeito, pergunto:

– E aí, doutor, deu tudo certo?
– Sim. Mas preciso lhe informar: o problema era um pouco diferente do que pensávamos.
– O que era?
– Você tinha um Flutter Atrial.

Flutter who?

– Sei. E isso pode voltar?
– Pode.
– E é perigoso?
– Ah… assim… amanhã a gente conversa.

Certo.

Situação 3:

Há exatos três anos, corria eu na esteira, cheio de eletrodos no corpo, quando começa a crise de arritmia. Vejo meus batimentos no monitor: 250bpm. A médica ao meu lado cai em silêncio, e eu ali lutando para recuperar o fôlego e, principalmente, manter a calma. Com um rádio, ela chama a assistente, que instantaneamente entra na sala:

– Me chamou?
– Sim. Ligue imediatamente para o cardiologista dele.
– Por quê, aconteceu alguma coisa?
– Uma arritmia.
– É séria?

A médica fica em silêncio por alguns segundos e então conclui num sussurro (juro):

– Séria… só a morte é.

Ouquei. Situação 4:

Dali vou direto para o cardiologista, que analisa o eletrocardiograma e esclarece:

– Não se preocupe, isso não mata.
– Ufa. É que a outra moça lá da esteira fez uma cara feia…
– Você só precisa chegar ao hospital a tempo quando tiver uma crise.

Então tá.

Antes de mais nada: hoje estou bem e saudável, obrigado. Apenas estava me lembrando dessas pérolas. Creio que os médicos sejam treinados para dar diagnósticos com cautela e tato, e não quero ensinar o padre a rezar. De qualquer forma, fica a profunda reflexão: as notícias frias e diretas, essas só os jornalistas devem dar, heh.

Un! Deux! Trois! Dis: Miroir Noir!!!!

Posted in Música on fevereiro 1, 2008 by Fabiano Ristow

As pessoas reclamam que o “M” do MTV perdeu o sentido, já que o canal praticamente não exibe mais clipes e preenche a maior parte de sua programação com inutilidades voltadas para o jovem fútil Beija Sapo e afins. Mas, convenhamos: hoje em dia, quem quer assistir a um vídeo específico vai recorrer a quem? Tudo bem que no You Tube perde-se muito da qualidade da imagem, mas é tudo em prol da maior velocidade e menor tamanho. Quem dera as MP3 tivessem todas as freqüências sonoras de um CD; mesmo assim, estamos todos aqui com nossos Emules e Ipods. Esta é a internet.

O jeito é reconhecer sua influência e adaptar-se a ela. Não, não vou falar do Radiohead, e sim DISSO! Desculpem minha empolgação, mas quem me conhece minimamente sabe do meu tesão pelo Arcade Fire. Tenho o costume de digitar o nome da banda no You Tube para ver shows recentes deles – normalmente gravados com uma Cybershot esquizofrênica no meio da multidão. Não tentem imaginar minha surpresa quando hoje aparece nada mais, nada menos, que o vídeo oficial de “Black Mirror” (do álbum “Neon Bible”)!

O clipe é interessante, especialmente a fotografia, claramente influenciada pelo expressionismo alemão e com um quê de “Viagem à Lua”, do Georges Méliès; mas aí eu descubro que a graça mesmo está em vê-lo através do site oficial. Basicamente você tem a opção de criar um novo arranjo para a música, podendo ocultar os instrumentos que desejar. São seis camadas:

1 – vocal
2 – bateria
3 – baixo
4 – violão/guitarra/piano
5 – vocal (com efeitos)
6 – violinos/violoncelos/oboé/harpa

“Black Mirror” é uma música grandiosa, quase épica, mas agora é possível fazer a versão acústica, basta deixar somente os números 1 e 4 ligados, há! Experimente também desligar todos, exceto o 5, e aumente o volume da sua caixa de som. Sério, dá medo. Enfim, dá para passar a madrugada brincando. Ah, e não deixem de ouvir a música original, claro.

E eis um clipe que nunca poderia passar na MTV ou em qualquer outro canal de TV, pois sua natureza requer a interatividade do espectador. Sua experiência só pode ser completamente aproveitada online. O Arcade Fire já tinha feito algo parecido com a faixa “Neon Bible”. E assim o mundo da música vai transformando a internet, há muito tempo no papel de vilã, numa aliada insigne da expressão artística.

 

(editado: a combinação 1-4-6 é bem bonita)

Freddy Krueger me aterroriza

Posted in Cinema, Geral on janeiro 31, 2008 by Fabiano Ristow

Enquanto pessoas que mereciam continuar nos alegrando com sua presença na Terra se vão precoce e injustamente, certos mortos ressuscitam para nos assombrar. Aí ficamos aqui perdidos tentando compreender a lógica desse mundo. O fato é que Backstreet Boys, Spice Girls, New Kids on the Block e etc começam a dar o ar da graça outra vez. O que está havendo com a indústria do entretenimento?!

Eis que Hollywood decide seguir a tendência com a confirmação do retorno de Freddy Krueger. Mas, aqui, confesso ter me interessado. Não será uma continuação do tipo cross over escroto entre ele e Jason, e sim um remake. Quando li a notícia eu meio que senti uma pontada de ânimo só pela possibilidade de reviver um personagem que marcou minha infância.

Quando criança eu não costumava sentir muito medo em filmes de terror, mas tiveram duas situações em que tive de tampar os olhos e me controlar para não sair do cinema chorando: a primeira foi durante a cena inicial de “Blade”, com aqueles milhares de vampiros dançando numa boate regada a sangue; a segunda, certamente mais torturante, foi assistindo a um filme do Freddy.

Não lembro qual exatamente, mas isso não importa, porque na época tanto fazia se era dirigido pelo Wes Craven ou por um Alan Smithee da vida. Eu não dava a mínima para a qualidade do que estava na tela. A premissa de “A Hora do Pesadelo” já era suficientemente macabra para mim, portanto eu era capaz de me cagar inteiro tanto no filme original da série quanto em qualquer uma das várias continuações inúteis realizadas.

O estilo de matança de Freddy exercia sua força e crueldade diretamente no meu imaginário. Para uma criança, creio que os maiores medos e os maiores fantasmas se manifestam em sua própria imaginação, e o lugar onde ela é perversamente obrigada a encarar essas assombrações é o pesadelo; ora, se me diziam que existia um assassino desfigurado que matava pessoas enquanto estas dormiam, como supostamente eu deveria reagir? Passava noites em claro evitando fechar os olhos.

(Talvez seja por isso que o cinema de terror asiático tenha ganhado tanto destaque nos últimos anos: ele mexe com nossas percepções mais óbvias do que consideramos macabro: fotografias borradas, barulhos debaixo da cama, crianças más, televisões em estática, silhuetas etc. Mexer com o nosso imaginário é tocar na ferida.)

Mas então, a notícia do remake até que despertou meu interesse. Só que, tipo, o Michael Bay vai produzir, então é meio que inevitável imaginar bilhões de dólares investidos em efeitos especiais para cenas de ação, o que é super fora do propósito. Oh well. Ah sim, o Jason de “Sexta-Feira 13” também terá uma refilmagem. O diretor escalado é Marcus Nispel. Isso aí, o mesmo de “O Massacre da Serra Elétrica – O Remake”, aquela obra-prima.

Por isso que eu digo. Vamos esquecer a cultura pop e virar indie.

4 Meses etc

Posted in Cinema on janeiro 29, 2008 by Fabiano Ristow

Foi depois de ter assistido a “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” que percebi como o aborto é romantizado na nossa sociedade. Falamos a respeito dessa prática numa abstração curiosa, muitas vezes sem nos darmos conta das Inconveniências envolvidas no processo. Claro, sabemos da precariedade existente nos “consultórios” ilegais e de seus riscos inerentes, mas sabemos apenas, ouvimos falar, discutimos, lemos no jornal. O tema parece estar no mesmo grupo onde estão a “fome na África” ou a “guerra no Oriente Médio”. Ou seja, faz parte do dia-a-dia, é corriqueiro, mas ao mesmo tempo situa-se tão longe da nossa realidade.

O filme, direto e cruel, deixa a conversa de lado e mostra minuciosamente as etapas de um aborto. Abre parênteses: a estética logo de cara evocou na minha cabeça “A Criança”, dos Dardennes, também vencedor da Palma de Ouro. Ambos poderiam entrar na categoria Filmes Realistas E Com Câmera Tremida Envolvendo Dois Personagens Lidando Com Um Bebê Ou Tentando Se Livrar Dele. Pois então, voltando. Há cenas explícitas e, obviamente, impactantes.

Nenhuma cena se compara, no entanto, àquela que não vou mencionar, mas que você sabe qual é, pois estamos falando de um aborto. Na cadeira do cinema, pensei: “Espero que a câmera não mostre isso”. Pois ela não só mostra, como se fixa ali durante vários segundos, evocando um misto de repugnância, desespero e tristeza.

Em geral, as pessoas que viram o filme comigo não gostaram dele tanto assim, alguns o consideraram “sensacionalista”. Mas ele não choca por chocar. O “exagero” força uma reflexão. É quando se desmistifica o aborto, encarando obscenamente, em longos planos, o tosco quartinho de hotel, os bisturis, a sonda alcançando o útero, a dor, a febre e o sangue, que você é capaz de considerar o assunto como algo real, e não como tema de redação de vestibular. A partir disso, ele talvez possa ser analisado sob um novo olhar.

Veja meu caso: sou a favor do aborto, mas num certo momento confesso ter dado um passo para trás; algo mexeu aqui dentro. Se o filme é contra? Não, ele não se rende a maniqueísmos ou moralismos, até porque também confronta o outro lado e freqüentemente pergunta: “Você é contra, mas e se fosse com você?” – além disso, torce-se pela protagonista como se ela fosse uma heroína, o que é um paradoxo para o espectador mais conservador, já que, ao ajudar uma amiga a retirar o feto, ela teoricamente é cúmplice de um assassinato.

O filme ainda é mestre no manuseio dos recursos técnicos para provocar tensão constante, vide a cena noturna que se passa na rua. De uma forma bem estranha, cheguei a lembrar de “Operação França”. Deixando de lado discursos políticos panfletários, o foco das atenções está nas torrentes de emoção de uma mulher caindo, sucessivamente, no imprevisível e tendo de lidar com os problemas da forma mais discreta possível. A cena mais representativa disso é aquela do jantar de aniversário. Simples, sem cortes e durando cerca de dez minutos (ou mais), seu peso dramático tem efeito muito maior do que os planos-seqüência grandiloqüentes que estão na moda em Hollywood.