Peixe e baratas

Postado em Música em Janeiro 16, 2008 por Fabiano Ristow

Então, fui ao Humaitá Pra Peixe. Aí você pergunta: “Mas você não é o indiezinho que só gosta de bandas vindas de Montreal?”. Isso é mito gerado por pessoas inconfiáveis e indignadas com minhas supostas críticas à cultura pop. Não poderiam estar mais enganadas, vide minha recente tara por Rihanna, Nelly Furtado e, err… Mika. Daqui a pouco posso trocar as segundas de Maldita por Baronetti. (Edit: isso foi uma piada, só para esclarecer).

Pois bem, eis que me deparo com uma banda de rock nacional bem bacana. Tudo começou quando estava futucando o Orkut de nossa EMI Girl (Carol) e notei que ela ia ao festival ver a Manacá. Justamente naquela semana eu tinha lido uma matéria na Megazine sobre a banda e pensei: “Por que não?”. Dei uma passadinha no lugar óbvio aonde vamos nessas ocasiões. Não escutei nada muito sofisticado, mas a melodia vocal da Leticia Persiles é um alívio em meio às vozes “masculinas” de adolescentes que insistem em montar bandas de garagem absolutamente iguais ao resto e que acreditam ser a cara do novo rock brasileiro.

Desliguei o computador assobiado o refrão de tons decrescentes de “Diabo” e murmurando letras simpáticas e folclóricas. O show felizmente foi uma experiência animadora, principalmente porque eles têm uma puta presença de palco. Tá, é verdade que a Letícia dá algumas escorregadas em termos de afinação, mas seu comportamento e despretensão compensam, e verdade seja dita: é uma graça vê-la se mover como uma menina do interior se espreguiçando. Letícia, você conquistou o coração de um amigo meu (né, amigo??).

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Deixando a música de lado e adentrando no papo de elevador, só queria deixar registrado meu desprezo tétrico pelo calor dos últimos dias. Como se não bastassem as dezenas de trocas de roupa diárias, o verão é o período em que as baratas decidem nos fazer companhia. Dia desses encontrei uma na toalha, enquanto me enxugava. Além de sua suposta sobrevivência numa possível destruição global por bombas atômicas, li que se todas as baratas sumissem magicamente, o desequilíbrio ecológico levaria, em contrapartida, ao aumento de gambás e morcegos nas grandes cidades. Menos pior, não?

Reouvindo Rihanna

Postado em Música em Janeiro 8, 2008 por Fabiano Ristow

Se a música é boa, eu danço. Pulo, até. Não importa se é Sigur Rós, Björk ou Vivaldi. Não precisa ser rápida e ter batidas propulsivas, basta empolgar.

Claro que não se pode esperar que todos pensem da mesma forma. Portanto, se quero dançar numa boate, o jeito é seguir a onda e o embalo dos hits que o povo curte. O problema é que fica aquela coisa meio burocrática, um passo para direita, um para a esquerda, etc. Mas se a galera está unida e a cerveja começa a fazer efeito, diverte.

Diverte até certo ponto, isto é, até tocar Rihanna, o que aconteceu nas últimas cinco festas em que fui. O pior é que os DJs levam a sério o verso “please don’t stop the music” e fazem uma versão de 20 minutos (pelo menos parece) do pegajoso single de “Good Girl Gone Bad”. O mais incômodo é que ele remete a churrascos de play lotados de adolescentes bêbados. Tenho um sério problema em associar músicas com certas festas indesejáveis em que tocam.

Mas em 2007 ninguém bateu a chatice irritantemente ofensiva de Sean Kingston com o arranjo padronizado e vocal insípido de “Beautiful Girls”. Certa vez estava correndo quando passou uma van anunciando em alto-falantes que comprava ferros-velhos. Para climatizar o comercial ambulante, puseram no fundo o tal hit do gordo incongruente. O resultado foi um efeito promíscuo de sucata com declaração brega do tipo: Aceito peças too usadas beautiful girl carros suicidal batidos e metal suicidal etc.

OK, abrindo o jogo… comecei falando mal dela, mas a verdade é que tive de dar o braço a torcer quando recentemente dei uma segunda chance à Rihanna. Sim, faz toda a diferença apreciar uma música com fones de ouvido e atenção, sem caixas de som estourando os detalhes, mas ainda assim me surpreendi quando assumi para mim mesmo que “Umbrella” e “Don’t Stop the Music” teriam de passar de maçantes a divertidas. A primeira é uma rara e eufônica canção capaz de tocar em vários tipos de baladas sem precisar apelar para a putaria. Uma pena que eu tenha demorado quase um ano para me dar conta disso.

Wi-fi na praia

Postado em Geral em Janeiro 4, 2008 por Fabiano Ristow

Copacabana terá internet banda larga de graça

Olha que bacana, um bom motivo para tirarmos nossos Macbooks das mochilas em plena orla de Copacabana. Quem se candidata?

Isso me lembra do Homer e do Bart na feirinha no episódio em que vêm ao Brasil.

A inexistência da Igreja (no filme) é bom

Postado em Cinema, Livro em Dezembro 28, 2007 por Fabiano Ristow

Não é exagero dizer que “Fronteiras do Universo” está entre meus livros favoritos. É uma história que começa centralizada numa personagem e num universo específico, e vai expandindo sua visão e abordando mais temas a cada página, até formar (muitos) personagens e (muitas) situações complexas. É melhor, mais profundo e mais interessante do que “Senhor dos Anéis”.

E sim, alfineta demais a Igreja, mas essas críticas foram retiradas do filme – ou ao menos disfarçadas, porque as referências são extremamente óbvias. Os homens do Magisterium (a instituição vilã da história que, no livro, é a Igreja) usam trajes hilariamente semelhantes a togas, sem contar que volta e meia eles falam sobre “heresia”. Até meu finado hamster seria inteligente o suficiente para ligar os pontinhos, embora ele tenha cometido a estupidez de se suicidar abrindo a própria gaiola (não me pergunte como) e pulando na piscina.

De qualquer forma, o que me interessa é dar um recado a todos os fãs que extirparam verbalmente o Chris Weitz por ter tirado as referências religiosas do filme. Gente, é muito mais interessante que não exista uma Igreja explícita ali, e sim uma instituição genérica. Assim, a crítica vai para todos os lados – a carapuça serve a qualquer modelo político/ideológico/etc baseado no autoritarismo e/ou que leve suas idéias ao extremo. E, se ainda assim o filme sugere a presença de padres e de Deus, então ele conseguiu uma forma não-óbvia e elegante de dizer o que quer. Então, qual o grilo?

No mais, a adaptação da New Line é razoavelmente divertida. Weitz peca não por modificar a história, mas por ser um diretor incompetente mesmo. Sobra didatismo e explicações esquematizadas, além de o ritmo ser ofensivamente irregular. Quando Lyra revela a Iorek (o urso do pôster aí em cima) o paradeiro de sua armadura, o animal a agradece e, tcham, ambos se tornam best friends forever. É tudo muito abrupto.

Conclusão do dia: leiam o livro e não se deixem levar pelo que está na tela.

Os melhores (e piores) filmes de 2007

Postado em Cinema em Dezembro 25, 2007 por Fabiano Ristow

Gostaria de ter ido mais vezes ao cinema esse ano. Deixei passar possíveis pérolas como “Medos Privados em Lugares Públicos”. De qualquer forma, eis os dez melhores filmes de 2007 (lançados no Brasil) que vi. A propósito, um feliz Natal a todos. =)

10 – Mais Estranho que a Ficção (Marc Forster)
Começa como uma ficção científica, introduz elementos de comédia romântica, depois de drama e desemboca na questão da importância da arte para a humanidade. E uma boa notícia: os voice-overs estão organicamente ligados com a proposta do filme – meta-linguagem e auto-referência. É por não conseguir isso que “Tropa de Elite” não está nesta lista.

9 – Apocalypto (Mel Gibson)
Epítome da categoria Torcendo Pelo Mocinho®.

8 – A Rainha (Stephen Frears)
Stephen Frears é um cara cuidadoso. Alexandre Desplat teve de compor a trilha em três semanas porque o diretor havia achando a do compositor anterior muito pouco sutil. Esse filme provavelmente não estaria no Top 100 se não fosse pela Hellen Mirren, mas, fazer o quê, ela é foda. “A Rainha” é sutil e observador. De certa forma, é fascinante porque é como se revelasse segredos de uma pessoa real que a mídia não foi capaz de desvendar. Não é tablóide porque não contempla as superficialidades, mas o comportamento. E é cinemão.

7 – A Lenda de Beowulf (Robert Zemeckis)
O lado bom de ser uma animação é que há maior liberdade em se criar cenas de ação sem que estas corram o risco de evidenciarem problemas técnicos como o uso de chroma key. Tanto as pessoas quanto os monstros e dragões constituem-se da mesma matéria-prima (CGI) e, portanto, situam-se no mesmo plano de (ir)realidade. Claro, há os movimentos travados, os lábios levemente dessincronizados e, por alguma razão, as mulheres são sempre estrábicas. De qualquer forma, foi atribuída uma artificialidade sombria e sexy (e conveniente) à personagem da Angelina Jolie. O ritmo lento reforça a sexualidade que sublinha praticamente a história inteira. Uma surpresa agradável.

6 – Superbad – É hoje (Greg Mottola)
“Superbad” é um amálgama de comédia depravada com um olhar honesto sobre a adolescência. Até seus momentos de baixa inspiração humorística – como as desventuras de McLovin com os guardas – carregam um forte tom energético na medida em que é uma delícia por si só testemunhar as reações de personagens com personalidades tão bem delineadas. Eis uma comédia teen extremamente original em que dois homens declarando amor um para o outro não soa gay.

5 – O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford (Andrew Dominik)
No meio da floresta e preparados para o bote, Jesse James e seus capangas esperam o trem se aproximar para assaltá-lo. Ele vem de uma escuridão quase palpável e numa lentidão sádica. Nesse ponto, Dominik já tinha me conquistado. O filme é atmosférico, flui como um rio sem pedras e ainda conta com Casey Affleck interpretando com perfeição o espreitador, teimoso e “bebezão” Robert Ford. Ah sim, a morte de Jesse James (vide título) também é uma Cena Memorável®.

4 – O Ultimato Bourne (Paul Greengrass)
Não é porque trabalho com edição, mas é impossível não se impressionar com o trabalho de corte feito nesse filme. Muitas seqüências não têm tomadas que durem sequer um segundo.Bourne é maduro e não perde tempo com piadinhas. Ou seja, é tudo o que James Bond (eca) não é. A última parte da trilogia é tensão constante e prova que Greengrass é um dos melhores diretores dos 00s.

3 – Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood)
Por um momento achei que esse deveria ficar em primeiro lugar. O filme provavelmente reúne a maior quantidade de Cenas Memoráveis® dessa lista. Pensar em “Cartas de Iwo Jima” é pensar numa sombra de desesperança te envolvendo num cerco cada vez mais fechado; numa água escura contra a qual você nada desesperadamente para chegar à superfície. Sim, é melancólico, mas não pessimista, pois aponta para a tenacidade possível em qualquer situação.

2 – A Vida dos Outros (Florian Henckel von Donnersmarck)
Não é do Antonioni, mas deveria estar no alto patamar dos filmes sobre incomunicabilidade. A impossibilidade de os personagens expressarem suas idéias cria uma bola de neve dentro da qual escondem segredos, anseios e perspectivas. Embora essa descrição possa parecer com a do narrador da Globo sobre o próximo filme do Intercine, o fato é que logo você desenvolve uma empatia imensa por aquelas pessoas, ao mesmo tempo em que é absorvido por uma trama de espionagem do tipo Fodeu, E Agora?

1 – O Sobrevivente (Werner Herzog)
Se eu estivesse na pele de Dieter Dengler, tendo que enfrentar meses preso dentro de uma cabana sem banheiro, comendo porcamente, dormindo no chão duro e com pés presos, sendo a única expectativa fugir em direção a uma floresta vietnamita densa infestada de animais perigosos e imprevisíveis, eu honestamente não teria cabeça para formar um plano de fuga nem forças para sorrir. Talvez por isso o personagem de Christian Bale seja tão fascinante. Herzog foca uma situação desesperadora sem abrir mão do humor. Ainda assim, discretamente “O Sobrevivente” vai construindo sua tensão enquanto disserta sobre a grandiosidade e poder implacável da natureza.

E os piores:

1 – Proibido Proibir (Jorge Durán)
2 – A Ponte (Eric Steel)
3 – Podecrer! (Arthur Fontes)
4 – Viagem a Darjeeling (Wes Anderson)
5 – Antes Só do que Mal Casado (Bobby Farrelly e Peter Farrelly)

Um dia qualquer

Postado em Geral em Dezembro 23, 2007 por Fabiano Ristow

Deus me livre. Cem mil pessoas no Norte Shopping hoje. A reportagem não fala, mas aqui no Barra Shopping chegaram a pendurar plaquinhas nas entradas dizendo: “Lotado”. Um contingente assim de seres humanos me sufoca, me deixa em pânico. Existe limite de pessoas que consigo suportar ao meu redor. É um caos que pede para ser evitado.

Ainda bem que aqui em casa não temos cerimônia. Nada de árvore, luzes, presentes e, principalmente, família reunida. No máximo, uma ou duas tias. E, mesmo assim, é quase uma achincalhação: se todos estão fazendo, então façamos também um jantar ou a simulação de um; só de brincadeira, por fazer.

O mesmo vale para todas as outras datas comemorativas do ano, inclusive aniversários: aqui, não passam de um dia qualquer. Datas são marcações arbitrárias, tempo não tem pontos nem vírgulas. Dieta se começa hoje; entre amanhã ou segunda-feira não há diferença, os ventos sopram contra ou a favor independentemente dos nomes.

Bom para mim, que não preciso aturar batalhas campais em shoppings e aquele clima de bolsa de valores em dia de queda. Olhe essa foto aí em cima. Sério, me dá vertigem. Nada contra o Natal, afinal, é um feriado. Proponho passá-lo enchendo a cara no MSN.

Dona de casa mal-assombrada

Postado em Cinema em Dezembro 22, 2007 por Fabiano Ristow

Já morei na rua de uma casa mal-assombrada. Ou assim ela se apresentava aos meus olhos. O assustador exerce fascínio e atração em uma criança, mas o que realmente nos levava a adentrar naquela mansão branca e suja, sem portas, com vidros quebrados e ratos mortos, além de matos e trepadeiras gigantescas percorrendo o quintal interno e a piscina vazia, revelando abandono duradouro – o que nos levava até lá era a certeza de que, mais tarde, poderíamos sentar numa roda de amigos e narrar as peripécias.

Havia brinquedos velhos espalhados e mensagens agourentas nas paredes. Acho. Porque já não sei o que estava mesmo lá e o que é produto da minha imaginação: obviamente, inventávamos muitas histórias. Recordei-me desses momentos enquanto assistia a “A Casa-Monstro”, mas o fator nostalgia não foi tão aprazível quanto sua surpreendente maturidade em relação às dezenas de animações americanas que pipocam toda hora.

Durante o primeiro ato me peguei pensando: “Wtf, por que fizeram uma animação se é tudo muito real?”. O filme tem poucos personagens e os cenários estão praticamente limitados a uma rua. O diretor Gil Kenan valoriza o silêncio e o realismo dos diálogos e das expressões faciais. Talvez os personagens não fossem tão carismáticos e tangíveis se tivessem usado atores de verdade. Kenan ainda lança mão de movimentos de câmera inteligentes e planos tremidos nas cenas de tensão – como se o cinegrafista estivesse filmando sem tripé -, principalmente naquelas em que alguém se aproxima da casa (ou foge dela). Casa, aliás, que, relevando seus mistérios aos poucos e nos momentos certos, é uma personagem à parte, enigmática e sombria. Tem surpresinhas no final, claro.

O mais foda é que, embora a história, até certo ponto, não seja megalomaníaca nem envolva outro mundo habitado por animais ou robôs falantes e fofinhos (que geralmente inspiram a indústria de brinquedos a aproveitar o gancho para produzir bonequinhos e miniaturas), ela tem fôlego para reunir incontáveis gags criativos a cada minuto, e eu me diverti loucamente com várias tiradas (“I’m sorry about your house – your wife… your… house-wife”; ”Well, if those are teeth, and that’s the tongue, then that must be the uvula” / “Oh, so it’s a girl house…”). E pensar que o Oscar de animação foi para “Happy Feet”…

E convenhamos que o filme não é exatamente um conto-de-fadas. Na maioria dos países ele foi classificado com Parental Guidance (PG), chegando a ser lançado com censura de 14 anos na Hungria. Além disso, se destaca da maioria dos longas animados hollywoodianos por não cair no politicamente correto – numa cena, uma menininha propõe a uma babá superfaturar o valor dos preços dos doces que está vendendo. Quão bizonho é isso? Tudo bem que para nós brasileiros não é tão chocante assim.

Vai um sanduíche?

Postado em Atualidades em Dezembro 21, 2007 por Fabiano Ristow

A capela em que dom Luiz Flávio Cappio jejua virou local de protestos. Centenas de pessoas adeptas à sua causa vão até lá segurar cartazes criticando a transposição do rio São Francisco. A greve de fome é polêmica, mas tem seus resultados. A cobertura maciça da mídia chama atenção da população e gera discussões sobre a empreitada que pretende levar águas do rio a regiões nordestinas secas. Ontem, após 23 dias sem comer, o bispo foi internado, e dá-lhe primeira página.

À primeira vista a greve de fome pode parecer infantilidade, do tipo: “Ah, então é assim? Então também não como, humpf!”. Por outro lado, o que fazer quando as obras já foram aprovadas por instituições competentes à sua legalização e as influências políticas escapam ao seu controle? Bem ou mal, efeitos surtem. O padre alega que não foram abertas discussões com a sociedade civil a respeito da transposição e questiona quem seriam os reais beneficiários da empreitada. Faz sentido.

De qualquer forma, o que eu esperava desta história, desde o começo, era que o governo não cedesse. Não que ele esteja necessariamente com a razão – embora aprovada pelo Ibama e agora pelo STF, não tenho conhecimento técnico suficiente para julgar a legitimidade da construção dos canais. E oportunos serão os debates advindos, quem sabe, disso tudo. O fato é que governos não podem se curvar à chantagem de uma pessoa.

Felizmente, Lula está irredutível. E afirmou: “Se ceder, o Estado acaba”. Sei que atualmente é excêntrico atribuir méritos ao governo. Mas… bingo.

Morte travessa

Postado em Livro em Dezembro 20, 2007 por Fabiano Ristow

Tirando aquelas virtudes meio óbvias e necessárias a qualquer escritor relativamente decente – habilidade em criar histórias criativas, narrativas que fluem bem etc – o que torna o Saramago fodão é como sua experiência de vida transparece em cada linha. Ele consegue extrair lições e profundidade de momentos aparentemente banais. Uma passagem de “Evangelho Segundo Jesus Cristo” particularmente marcante:

“Nesta noite não houve conversas, nem recitações, nem histórias contadas à volta da fogueira, como se a proximidade de Jerusalém obrigasse ao silêncio, cada um olhando para dentro de si e perguntando, Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer, e não é que o dissessem de facto, as pessoas não se põem assim a falar sozinhas, sem mais nem menos, ou sequer o pensassem conscientemente, porém o certo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos as chamas de uma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras, são aquelas, e dizem tudo.”

Foi com a expectativa de encontrar passagens como essa que abri “Intermitências da Morte” e me decepcionei. O livro é ótimo, mas, se tratando de Saramago, não basta o picolé ser bom: ele tem de vir com palito premiado. Alem disso, “Ensaio Sobre a Cegueira” me mimou. O que peca mais é a primeira metade, que, não se concentrando em personagens específicos, dá uma visão mais panorâmica e desumanizada da situação: um dia, todas as pessoas de um país (anônimo) param de morrer.

Se num primeiro momento tudo parece mil maravilhas, logo empresas e serviços capitalistas entram em crise – e o Saramago tem que criticar o capitalismo. Mas pelo menos o faz com estilo e humor. Como as funerárias fazem para não falir? Enterram animais, claro. Mas quem se ferra mesmo é a Igreja. Afinal, se não há morte, não há Paraíso.

A boa notícia é que, a partir da segunda metade, o olhar panorâmico se aproxima e passa a concentrar as atenções em uma única pessoa: a morte. Sim, uma caveira de capuz preto e foice, e com “m” minúsculo mesmo. Uma morte que volta a matar e envia cartas violetas às pessoas prestes a baterem as botas, dando as devidas condolências. Mas que está em dúvida se não é melhor se modernizar e usar o Microsoft Outlook Express.

O livro, no fim das contas, é sobre uma morte obcecada; um violoncelista e um cão; a capacidade que a música tem de unir almas; um parque e um telefonema; e sobre a Suíte nº 6 de Sebastian Bach. E conta com um dos finais mais belos/assustadores/wtf que já li.

O post que ninguém lê

Postado em Geral em Dezembro 18, 2007 por Fabiano Ristow

Este é o post que ninguém vai ler, porque ainda não divulguei o blog para ninguém. Aliás, nunca me saí bem com as artimanhas necessárias à popularização de um blog. Escrever diariamente e comentar em sites alheios são algumas delas.

Minha última tentativa tinha sido de mestre. Compartilhei o Só Sapos com outras quatro pessoas, assim a atualização freqüente seria muito mais fácil. Além disso, não era apenas eu divulgando. O problema é que percebi que me sinto à vontade mesmo num espaço individual, onde eu tenha mais liberdade para falar sobre assuntos mais pessoais e todo o resto.

De qualquer forma, sem mais enrolação: esse aqui é definitivo, ok? Ok. Então deixe que me apresente (merda, eu vinha tentando evitar essa frase). Ou melhor, de interessante nada tenho. Então, para quem não sabe, uma explicação do porquê do título.

Laika foi um cachorro enviado ao espaço pela União Soviética na década de 50. Ele morreu poucas horas depois de entrar em órbita. Wikipédia etc.

E também é uma música do Arcade Fire.

Até mais.