Não é exagero dizer que “Fronteiras do Universo” está entre meus livros favoritos. É uma história que começa centralizada numa personagem e num universo específico, e vai expandindo sua visão e abordando mais temas a cada página, até formar (muitos) personagens e (muitas) situações complexas. É melhor, mais profundo e mais interessante do que “Senhor dos Anéis”.
E sim, alfineta demais a Igreja, mas essas críticas foram retiradas do filme – ou ao menos disfarçadas, porque as referências são extremamente óbvias. Os homens do Magisterium (a instituição vilã da história que, no livro, é a Igreja) usam trajes hilariamente semelhantes a togas, sem contar que volta e meia eles falam sobre “heresia”. Até meu finado hamster seria inteligente o suficiente para ligar os pontinhos, embora ele tenha cometido a estupidez de se suicidar abrindo a própria gaiola (não me pergunte como) e pulando na piscina.
De qualquer forma, o que me interessa é dar um recado a todos os fãs que extirparam verbalmente o Chris Weitz por ter tirado as referências religiosas do filme. Gente, é muito mais interessante que não exista uma Igreja explícita ali, e sim uma instituição genérica. Assim, a crítica vai para todos os lados – a carapuça serve a qualquer modelo político/ideológico/etc baseado no autoritarismo e/ou que leve suas idéias ao extremo. E, se ainda assim o filme sugere a presença de padres e de Deus, então ele conseguiu uma forma não-óbvia e elegante de dizer o que quer. Então, qual o grilo?
No mais, a adaptação da New Line é razoavelmente divertida. Weitz peca não por modificar a história, mas por ser um diretor incompetente mesmo. Sobra didatismo e explicações esquematizadas, além de o ritmo ser ofensivamente irregular. Quando Lyra revela a Iorek (o urso do pôster aí em cima) o paradeiro de sua armadura, o animal a agradece e, tcham, ambos se tornam best friends forever. É tudo muito abrupto.
Conclusão do dia: leiam o livro e não se deixem levar pelo que está na tela.
Tirando aquelas virtudes meio óbvias e necessárias a qualquer escritor relativamente decente – habilidade em criar histórias criativas, narrativas que fluem bem etc – o que torna o Saramago fodão é como sua experiência de vida transparece em cada linha. Ele consegue extrair lições e profundidade de momentos aparentemente banais. Uma passagem de “Evangelho Segundo Jesus Cristo” particularmente marcante: