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A inexistência da Igreja (no filme) é bom

Postado em Cinema, Livro em Dezembro 28, 2007 por Fabiano Ristow

Não é exagero dizer que “Fronteiras do Universo” está entre meus livros favoritos. É uma história que começa centralizada numa personagem e num universo específico, e vai expandindo sua visão e abordando mais temas a cada página, até formar (muitos) personagens e (muitas) situações complexas. É melhor, mais profundo e mais interessante do que “Senhor dos Anéis”.

E sim, alfineta demais a Igreja, mas essas críticas foram retiradas do filme – ou ao menos disfarçadas, porque as referências são extremamente óbvias. Os homens do Magisterium (a instituição vilã da história que, no livro, é a Igreja) usam trajes hilariamente semelhantes a togas, sem contar que volta e meia eles falam sobre “heresia”. Até meu finado hamster seria inteligente o suficiente para ligar os pontinhos, embora ele tenha cometido a estupidez de se suicidar abrindo a própria gaiola (não me pergunte como) e pulando na piscina.

De qualquer forma, o que me interessa é dar um recado a todos os fãs que extirparam verbalmente o Chris Weitz por ter tirado as referências religiosas do filme. Gente, é muito mais interessante que não exista uma Igreja explícita ali, e sim uma instituição genérica. Assim, a crítica vai para todos os lados – a carapuça serve a qualquer modelo político/ideológico/etc baseado no autoritarismo e/ou que leve suas idéias ao extremo. E, se ainda assim o filme sugere a presença de padres e de Deus, então ele conseguiu uma forma não-óbvia e elegante de dizer o que quer. Então, qual o grilo?

No mais, a adaptação da New Line é razoavelmente divertida. Weitz peca não por modificar a história, mas por ser um diretor incompetente mesmo. Sobra didatismo e explicações esquematizadas, além de o ritmo ser ofensivamente irregular. Quando Lyra revela a Iorek (o urso do pôster aí em cima) o paradeiro de sua armadura, o animal a agradece e, tcham, ambos se tornam best friends forever. É tudo muito abrupto.

Conclusão do dia: leiam o livro e não se deixem levar pelo que está na tela.

Morte travessa

Postado em Livro em Dezembro 20, 2007 por Fabiano Ristow

Tirando aquelas virtudes meio óbvias e necessárias a qualquer escritor relativamente decente – habilidade em criar histórias criativas, narrativas que fluem bem etc – o que torna o Saramago fodão é como sua experiência de vida transparece em cada linha. Ele consegue extrair lições e profundidade de momentos aparentemente banais. Uma passagem de “Evangelho Segundo Jesus Cristo” particularmente marcante:

“Nesta noite não houve conversas, nem recitações, nem histórias contadas à volta da fogueira, como se a proximidade de Jerusalém obrigasse ao silêncio, cada um olhando para dentro de si e perguntando, Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer, e não é que o dissessem de facto, as pessoas não se põem assim a falar sozinhas, sem mais nem menos, ou sequer o pensassem conscientemente, porém o certo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos as chamas de uma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras, são aquelas, e dizem tudo.”

Foi com a expectativa de encontrar passagens como essa que abri “Intermitências da Morte” e me decepcionei. O livro é ótimo, mas, se tratando de Saramago, não basta o picolé ser bom: ele tem de vir com palito premiado. Alem disso, “Ensaio Sobre a Cegueira” me mimou. O que peca mais é a primeira metade, que, não se concentrando em personagens específicos, dá uma visão mais panorâmica e desumanizada da situação: um dia, todas as pessoas de um país (anônimo) param de morrer.

Se num primeiro momento tudo parece mil maravilhas, logo empresas e serviços capitalistas entram em crise – e o Saramago tem que criticar o capitalismo. Mas pelo menos o faz com estilo e humor. Como as funerárias fazem para não falir? Enterram animais, claro. Mas quem se ferra mesmo é a Igreja. Afinal, se não há morte, não há Paraíso.

A boa notícia é que, a partir da segunda metade, o olhar panorâmico se aproxima e passa a concentrar as atenções em uma única pessoa: a morte. Sim, uma caveira de capuz preto e foice, e com “m” minúsculo mesmo. Uma morte que volta a matar e envia cartas violetas às pessoas prestes a baterem as botas, dando as devidas condolências. Mas que está em dúvida se não é melhor se modernizar e usar o Microsoft Outlook Express.

O livro, no fim das contas, é sobre uma morte obcecada; um violoncelista e um cão; a capacidade que a música tem de unir almas; um parque e um telefonema; e sobre a Suíte nº 6 de Sebastian Bach. E conta com um dos finais mais belos/assustadores/wtf que já li.