Dooon’t stop… belieeeving
FINALMENTE, terminei “Família Soprano”. Final foda. Vai de encontro a tudo que eu poderia esperar/imaginar. Confesso que, por causa disso, a digestão demorou algumas horas. Mas, considerando se tratar de uma série que, desde o começo, teve culhões para agarrochar noções tradicionais de moralismo, não há outra palavra para classificar o desfecho a não ser brilhante.
Tony Soprano apareceu pela primeira vez na sala de espera de um consultório psiquiátrico, em 1999, numa cena que revelava seu caráter ambíguo: um pai sentimental e, ao mesmo tempo, chefe da máfia de New Jersey, responsável por inúmeros assassinatos e casos de corrupção. A HBO ainda hesitou em mostrar Tony matando alguém com suas próprias mãos – o que veio a acontecer somente no sexto episódio. Ela receava uma possível aversão do público a um personagem “cruel”. Não foi o que aconteceu.
Pessoalmente, nunca considerei correta a possibilidade de Tony sair ileso no fim da história – o que contraria o desejo de boa parte dos telespectadores. De que lado o criador David Chase ficaria eu não tinha a menor idéia. Depois de oito anos, ele conseguiu engendrar um final absolutamente espetacular, inteligente e ambíguo – e heterodoxo. Se você ainda não viu a série e é louco o suficiente para assistir à última cena mesmo assim, vá em frente (não recomendo). Comparada até com Haneke, ela provocou polêmica na mídia e público, pois… (selecione o texto a seguir):
[...não responde se Tony morre ou não. Na primeira temporada, Bobby Bacala menciona que você provavelmente nem ouve o som da bala quando toma um tiro na cabeça, e o fato de essa cena final ser abruptamente interrompida - num corte seco para a tela preta - sugere algo do tipo. Pessoas aparentemente suspeitas entram na lanchonete, olham de soslaio, um homem vai até o banheiro parecendo tramar alguma coisa. A cena inteira bafeja tragédia. Mas, até aí, isso poderia não passar de paranóia de Tony e a família continuou jantando normalmente.]
O desfecho contraria qualquer expectativa hollywoodiana de catarse dramática. Na verdade, todos os últimos nove episódios são construídos sobre uma impassibilidade pouco familiar, mas, paradoxalmente, nem por isso deixam de lado as fórmulas que consagraram o programa: o humor (negro) constante, os complexos nuances dos caráteres dos personagens, a violência explícita e a prodigiosa capacidade de extrair grandes temas de pequenas coisas.
De qualquer forma, não há as Grandes Cenas Finais, os Grandes Desfechos, as Últimas Aparições e as Grandes Despedidas. Estão ali personagens que você acompanhou durante quase uma década, e de repente a câmera desvia o olhar e nunca mais os mostra; a narrativa passa a se preocupar com outra subtrama. Isso é uma evidência da independência de uma série que sempre andou com as próprias pernas, sem jamais se prender, na medida do possível, às demandas do ibope. Personagens sempre morreram em prol da narrativa, por exemplo, independentemente de serem ou não queridos pelo público.
Só me dei conta do quão foda é o final de “Família Soprano” algumas horas depois de vê-lo, e foi também nesse instante que bateu aquele vazio clássico de quando você termina um livro bom e tem de encarar o fato de que nunca mais lerá sobre aqueles personagens com os quais você tanto se identificou. Sério, até agora estou deprimido. Vou ver MTV.
Fevereiro 11, 2008 às 4:19 am
Vc não sabe minha curiosidade para ler o spoiler. Isso pq eu nunca vi Sopranos. Mas, isso vai mudar em breve
Fevereiro 11, 2008 às 11:49 am
Família Soprano é a melhor série de todos os tempos. Ponto.
Roteiro, direção, elenco (meu Deus, o que são James Gandolfini e Edie Falco??)… tudo. É simplesmente de outra categoria.
Há séries. Há séries boas. Há séries muito boas. Há séries ótimas. Há Família Soprano.
E isso pq nem vi a 6ª tempo ainda (mas vi os dois últimos eps – sim, eu sou retardado).
Fevereiro 13, 2008 às 3:18 pm
A última temporada foi arrasadora, desde a aparente decadencia do Tony até o que parecia um momento família no último episódio.
Só tenho a primeira temporada em DVD, é a mais leve, mas também ajudou a criar essa simpatia com o Tony.