Tem que ser com jeitinho
Situação 1:
Meu coração andou despirocando novamente nas últimas semanas, então ontem fui ao Cardiologista – um novo. Chegando lá, ele ouve meus batimentos com o estetoscópio, tira a pressão, faz o eletro, essas coisas de praxe, e então coloca a mão na minha barriga, esboça uma careta e diz:
- Você sabia que sua barriga pulsa?
- Ahn… não?
- Pois é. Deve ser porque você é magro.
- Sei.
- …ou porque você tem uma aorta anormal.
Assim, casualmente. Simpático, não?
Situação 2:
Há pouco mais de dois anos, minutos depois da ablação (cateterismo), ainda na cama da UTI e tentando enxergar através do rastro de neblina deixado pela anestesia ainda em efeito, pergunto:
- E aí, doutor, deu tudo certo?
- Sim. Mas preciso lhe informar: o problema era um pouco diferente do que pensávamos.
- O que era?
- Você tinha um Flutter Atrial.
Flutter who?
- Sei. E isso pode voltar?
- Pode.
- E é perigoso?
- Ah… assim… amanhã a gente conversa.
Certo.
Situação 3:
Há exatos três anos, corria eu na esteira, cheio de eletrodos no corpo, quando começa a crise de arritmia. Vejo meus batimentos no monitor: 250bpm. A médica ao meu lado cai em silêncio, e eu ali lutando para recuperar o fôlego e, principalmente, manter a calma. Com um rádio, ela chama a assistente, que instantaneamente entra na sala:
- Me chamou?
- Sim. Ligue imediatamente para o cardiologista dele.
- Por quê, aconteceu alguma coisa?
- Uma arritmia.
- É séria?
A médica fica em silêncio por alguns segundos e então conclui num sussurro (juro):
- Séria… só a morte é.
Ouquei. Situação 4:
Dali vou direto para o cardiologista, que analisa o eletrocardiograma e esclarece:
- Não se preocupe, isso não mata.
- Ufa. É que a outra moça lá da esteira fez uma cara feia…
- Você só precisa chegar ao hospital a tempo quando tiver uma crise.
Então tá.
Antes de mais nada: hoje estou bem e saudável, obrigado. Apenas estava me lembrando dessas pérolas. Creio que os médicos sejam treinados para dar diagnósticos com cautela e tato, e não quero ensinar o padre a rezar. De qualquer forma, fica a profunda reflexão: as notícias frias e diretas, essas só os jornalistas devem dar, heh.
Fevereiro 7, 2008 às 2:29 pm
As 4 situações são tão surreais e sem-noção que até parecem ter saído de algum roteiro de tragicomédia. Eu confesso que cheguei a gargalhar. Não das situações, mas dos médicos sem tato.
Fevereiro 8, 2008 às 12:47 pm
Cara…. bem… podemos ao menos agora pensar em escolher um médico pela capacidade que ele tem em dar uma noticia não muito boa…
Porque juro…eu teria matados todos se eu fosse você….
Fevereiro 11, 2008 às 1:50 pm
Eu adoro a falta de tato do ser humano.
Fevereiro 13, 2008 às 7:28 pm
Isso ainda me preocupa. O importante é ter somente essas 4 situações para se contar. Quanto à falta de tato dos médicos, é de fato vergonhoso. O médico tem que ter consciência de que seu paciente precisa estar são fisica e mentalmente.
Maio 4, 2008 às 5:45 pm
A conclusao do texto foi a maravilhosa! Seria sensacional se a gente tivesse um jornalista especializado em contar as más noticias
Por mais tato que se tenha, más noticias serão sempre um terremoto na cabeças dos pacientes. Poxa, e eu nem achei os médicos da historia tao surreais assim… mas fico feliz que o autor esteja bem e com bom humor.
Julho 17, 2008 às 2:01 pm
eu passei por uma dessa com minha filha recém nascida na uti do hospital
medica: ela teve febre muito alta
mãe desesperada, descabelada e recém parida atônita: tem algum diagnóstico
medica delicada como uma flor: não, ainda não saiu o resultado do teste de meningite
mãe parada sem saber mais o que perguntar
ha
mas tão novo com ese coração pra lá de abalado rapaz