Dona de casa mal-assombrada

Já morei na rua de uma casa mal-assombrada. Ou assim ela se apresentava aos meus olhos. O assustador exerce fascínio e atração em uma criança, mas o que realmente nos levava a adentrar naquela mansão branca e suja, sem portas, com vidros quebrados e ratos mortos, além de matos e trepadeiras gigantescas percorrendo o quintal interno e a piscina vazia, revelando abandono duradouro – o que nos levava até lá era a certeza de que, mais tarde, poderíamos sentar numa roda de amigos e narrar as peripécias.

Havia brinquedos velhos espalhados e mensagens agourentas nas paredes. Acho. Porque já não sei o que estava mesmo lá e o que é produto da minha imaginação: obviamente, inventávamos muitas histórias. Recordei-me desses momentos enquanto assistia a “A Casa-Monstro”, mas o fator nostalgia não foi tão aprazível quanto sua surpreendente maturidade em relação às dezenas de animações americanas que pipocam toda hora.

Durante o primeiro ato me peguei pensando: “Wtf, por que fizeram uma animação se é tudo muito real?”. O filme tem poucos personagens e os cenários estão praticamente limitados a uma rua. O diretor Gil Kenan valoriza o silêncio e o realismo dos diálogos e das expressões faciais. Talvez os personagens não fossem tão carismáticos e tangíveis se tivessem usado atores de verdade. Kenan ainda lança mão de movimentos de câmera inteligentes e planos tremidos nas cenas de tensão – como se o cinegrafista estivesse filmando sem tripé -, principalmente naquelas em que alguém se aproxima da casa (ou foge dela). Casa, aliás, que, relevando seus mistérios aos poucos e nos momentos certos, é uma personagem à parte, enigmática e sombria. Tem surpresinhas no final, claro.

O mais foda é que, embora a história, até certo ponto, não seja megalomaníaca nem envolva outro mundo habitado por animais ou robôs falantes e fofinhos (que geralmente inspiram a indústria de brinquedos a aproveitar o gancho para produzir bonequinhos e miniaturas), ela tem fôlego para reunir incontáveis gags criativos a cada minuto, e eu me diverti loucamente com várias tiradas (“I’m sorry about your house – your wife… your… house-wife”; ”Well, if those are teeth, and that’s the tongue, then that must be the uvula” / “Oh, so it’s a girl house…”). E pensar que o Oscar de animação foi para “Happy Feet”…

E convenhamos que o filme não é exatamente um conto-de-fadas. Na maioria dos países ele foi classificado com Parental Guidance (PG), chegando a ser lançado com censura de 14 anos na Hungria. Além disso, se destaca da maioria dos longas animados hollywoodianos por não cair no politicamente correto – numa cena, uma menininha propõe a uma babá superfaturar o valor dos preços dos doces que está vendendo. Quão bizonho é isso? Tudo bem que para nós brasileiros não é tão chocante assim.


Uma resposta para “Dona de casa mal-assombrada”

  1. quero uma historia de brinquedos assombrados pra hj
    oq faço eu não encontro

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