Morte travessa

Tirando aquelas virtudes meio óbvias e necessárias a qualquer escritor relativamente decente – habilidade em criar histórias criativas, narrativas que fluem bem etc – o que torna o Saramago fodão é como sua experiência de vida transparece em cada linha. Ele consegue extrair lições e profundidade de momentos aparentemente banais. Uma passagem de “Evangelho Segundo Jesus Cristo” particularmente marcante:

“Nesta noite não houve conversas, nem recitações, nem histórias contadas à volta da fogueira, como se a proximidade de Jerusalém obrigasse ao silêncio, cada um olhando para dentro de si e perguntando, Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer, e não é que o dissessem de facto, as pessoas não se põem assim a falar sozinhas, sem mais nem menos, ou sequer o pensassem conscientemente, porém o certo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos as chamas de uma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras, são aquelas, e dizem tudo.”

Foi com a expectativa de encontrar passagens como essa que abri “Intermitências da Morte” e me decepcionei. O livro é ótimo, mas, se tratando de Saramago, não basta o picolé ser bom: ele tem de vir com palito premiado. Alem disso, “Ensaio Sobre a Cegueira” me mimou. O que peca mais é a primeira metade, que, não se concentrando em personagens específicos, dá uma visão mais panorâmica e desumanizada da situação: um dia, todas as pessoas de um país (anônimo) param de morrer.

Se num primeiro momento tudo parece mil maravilhas, logo empresas e serviços capitalistas entram em crise – e o Saramago tem que criticar o capitalismo. Mas pelo menos o faz com estilo e humor. Como as funerárias fazem para não falir? Enterram animais, claro. Mas quem se ferra mesmo é a Igreja. Afinal, se não há morte, não há Paraíso.

A boa notícia é que, a partir da segunda metade, o olhar panorâmico se aproxima e passa a concentrar as atenções em uma única pessoa: a morte. Sim, uma caveira de capuz preto e foice, e com “m” minúsculo mesmo. Uma morte que volta a matar e envia cartas violetas às pessoas prestes a baterem as botas, dando as devidas condolências. Mas que está em dúvida se não é melhor se modernizar e usar o Microsoft Outlook Express.

O livro, no fim das contas, é sobre uma morte obcecada; um violoncelista e um cão; a capacidade que a música tem de unir almas; um parque e um telefonema; e sobre a Suíte nº 6 de Sebastian Bach. E conta com um dos finais mais belos/assustadores/wtf que já li.

3 Respostas para “Morte travessa”

  1. Excelente seu ‘post’. É isso mesmo. Saramago deu nova vida à literatura moderna, quando excluiu a banalidade que a vinha caracterizando, e injetou novas formas de reflexão filosófica, sem matar o lirismo e a beleza do texto.

    Antes de Saramago – e isso era quase que geral -, ou se lia filosofia em textos chatos e complicados, distantes da prática diária, escritos quase que somente para doutores; ou se lia romances simplórios, onde o apelo sexual era o ponto máximo.

    Viva Saramago e seu talento inigualável para escrever.

    A você, parabéns pelo blog bem escrito e de bom gosto. Volto depois, para ler mais.

    Um abraço!

  2. É, Saramago é foda (aliás acho que eu já te disse isso)…

    Ainda lembra de mim?

  3. Fabiano Ristow Diz:

    andré: obrigado pelo comentário, hehe
    quanto ao saramago, só tenho certeza do quê ele significa pra mim =P

    artur: largo: etc? só pode ser. não, não lembro de vc… ¬¬

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